Uma história da UFMT…

Virtude e sabedoria
(ou uma história da UFMT*)

A Universidade que hoje possui grandes edificações e diversos espaços de interação social – em Cuiabá, em Barra do Garças, no Pontal do Araguaia, em Sinop e, em breve, em Várzea Grande – teve um começo bastante singelo, mas, nem por isso, pouco significativo. 

Um ano antes de sua criação, Cuiabá recebeu Ernesto Geisel,  primeira e única vez que um presidente da República visitou a Instituição. Em um espaço ainda em construção, sem auditórios ou anfiteatros, a recepção se deu em uma sala de aula.

O chefe de Estado sentou-se em uma carteira escolar e ouviu do futuro reitor, professor Gabriel Novis Neves, que discorreu por cerca de duas horas sobre as intenções de preservação da cultura e formação de profissionais para a região, atuando como uma  agência de desenvolvimento de Mato Grosso.

A história da Universidade Federal de Mato Grosso é muito mais que um acaso ou uma consequência. É a saga de lutas que uniram classes sociais e socioculturais e que se entrelaça à história de Mato Grosso, culminando em 10 de dezembro de 1970, com a vitória de um sonho. Os cuiabanos foram para as ruas e brigaram, primeiro, para conquistar a Instituição de Ensino Superior, que, com muito orgulho, leva o nome de Mato Grosso e hoje é a mais abrangente do estado, atuando no ensino presencial e na educação a distância; depois, para que sua sede fosse construída em Cuiabá, e não em Campo Grande. Com a notícia confirmada, em 1969, de que a cidade vencera, o povo novamente foi às ruas, mas desta vez para comemorar.

A escolha em desenvolver pesquisas junto à realidade Amazônica rendeu o apelido de Universidade da Selva, ou Uniselva, e marcou o compromisso da Instituição com a regionalização. A filosofia era valorizar a sabedoria popular que no final das contas foi o que tornou a Universidade o que é hoje. Com a oferta de ensino superior no estado, os jovens poderiam fazer seus estudos  sem a necessidade de ir até São Paulo.

Além do mais, muitos dos que iam não voltavam, acabavam ficando por lá, apanhados pela promessa de ofertas de empregos e maiores oportunidades. Com a criação da UFMT, a intenção era formar esses profissionais para atender as necessidades da região preservando sua cultura, desenvolver o estado por meio da educação regionalizada.

Se hoje uma carreira acadêmica exige dos interessados curso de pós-graduação, naquele período as práticas eram diferentes e culturalmente a experiência contava mais que a titularidade, o binômio aparece invertido e a ordem ensino e pesquisa tiveram seus lugares trocados. Nesse cenário surgiu o projeto Cidade Laboratório de Humboldt em Aripuanã, que absorvia os conhecimentos sobre a região amazônica para depois levá-los para o ensino em sala de aula. O objetivo era desenvolver uma ciência que respeite o meio ambiente e as etnias que formavam o estado. Devido à localização privilegiada, no centro geodésico da América do Sul, buscava, também, um sistema de intercâmbio cultural, com a participação de cientistas estrangeiros, entre países da mesma conformação fisiográfica. Com apenas cinco anos, esse foi o mais audacioso projeto de interiorização da Instituição.  

A pedra na água

A identidade visual da UFMT consegue expressar – de forma prática e ao mesmo tempo poética – o sentido da sua existência; é aquele propósito que rege as ações, práticas e metas da vida, e que confere, portanto, um caráter de organismo vivo, mutável e, principalmente, evolutivo à Instituição. A criação dessa identidade se deu ainda na década de 70, obra do artista plástico Wlademir Dias-Pino, que assumiu a empreitada de desenvolver a “marca” e a “cara” de uma Universidade que estava, ainda, em seus primeiros passos, a Universidade da Selva, Tamanha foi a coerência entre a multiplicidade de sentidos criados a partir dos valores adotados pela Instituição, que essa é, até hoje, a representação mais significativa de todas.

A musa inspiradora foi a própria natureza, em que uma simples ação de jogar a pedra na água aliou, expansão, conhecimento e profundidade. As ondas da superfície que se alastram representam a expansão territorial própria da edificação da Universidade até aquele momento e também a que se seguiu ao longo dessa caminhada de meio século. Essa trajetória está constantemente em movimento. 

Já a pedra que caiu na água, e a cada milésimo de segundo se aproxima ao chão, ilustra a intervenção da instituição no âmbito do conhecimento e da cultura local, tornando-se um fator físico capaz de medir a profundidade dessas duas esferas. A imagem que combina figuras geométricas – círculos que visualmente parecem um alvo e ganham o quadrado para dar foco a esse alvo, o conhecimento – inspirada pela ação de uma pedra que cai na água foi quase como um presságio, que anunciava a sequência dessa história. Foi assim, com um conceito de educação que transita entre saberes acadêmico e local – formado a partir da experiência de sua gente – que a UFMT expandindo e ultrapassando os limites de Cuiabá se tornou a mais abrangente instituição de ensino superior do estado, formando, nos quatro cantos de Mato Grosso, profissionais críticos, competentes e aptos para atuar em todas as partes do mundo.

União de forças

 A junção da Faculdade de Direito e do Instituto de Ciências e Letras da cidade marca o início da Instituição, que foi construída num dos espaços privilegiados de Cuiabá: o Distrito do Coxipó. Entretanto, o Câmpus necessitava de edificações que pudessem abrigar os cursos já existentes e aqueles que ainda seriam criados. Começa então o período, como definiu o saudoso professor Benedito Pedro Dorileo, “fazejamento” – termo adotado para apontar o processo de construção da Instituição, que se deu na ordem inversa, fazer antes de planejar. O começo foi sem muito apoio do então Departamento de Assuntos Universitários (DAU), tanto de pessoal para elaborar o projeto quanto de verba. O status de Fundação permitiu que a Instituição recebesse doações, e mesmo federal, sobreviveu no início com recursos estaduais.

 

A primeira década foi marcada por um expressivo crescimento, com o avanço da estrutura física e dos primeiros centros de ensino, assim como da luta para o reconhecimento dos cursos existentes pelo Ministério da Educação. Foi durante esse período que aconteceram as significativas construções do Ginásio, da Quadras de Esportes – que serviu como suporte necessário para a abertura do curso de Educação Física, e do Parque Aquático, em que a comunidade passou a frequentar esses espaços e se sentiu pertencente àqueles lugares; o Restaurante Universitário foi construído já no final desta década, só em 1979.

Com o passar dos anos e em decorrência dessa expansão tanto física quanto simbólica, fez-se necessário ampliar a esfera acadêmica e explorar novos horizontes ainda não desbravados, a pós-graduação. Foi a partir da criação da Coordenação de Pós-Graduação (CPG), em 1978, que a UFMT deu início ao processo que criou condições para essa nova esfera. É importante ressaltar a iniciativa do Centro de Ciências Agrárias (CCA) que, em 1975, enviou treze dos seus professores para se titularem nas mais diversificadas áreas das Ciências Agrárias.

A UFMT atuou na preservação da cultura local, ocupando papel de vanguarda. Em 1972, nasce o Museu Rondon como órgão suplementar da Instituição, uma homenagem a Cândido Mariano da Silva Rondon, mato-grossense responsável pela criação do Serviço Nacional de Proteção aos Índios (SPI) e pela instalação dos Serviços Telegráficos de Mato Grosso. Tornou-se, então, uma espécie de registro cultural dos grupos remanescentes, uma forma de preservar e valorizar uma das culturas tão presentes no estado. Até hoje o Museu está em funcionamento e abriga peças e artefatos confeccionados pelos próprios índios, com exposições que podem ser visitadas pela comunidade interna e externa. 

Ginásio
Indo ao encontro da sociedade

Durante a década de 80, a intensificação do processo de interiorização foi marcada pela integração, em 1980, do Centro Pedagógico de Rondonópolis (CPR) à Universidade Federal de Mato Grosso, antes disso, era vinculada à Universidade Estadual de Campo Grande. O Câmpus nasceu em 1976 e foi fruto do clamor da população da época. Entretanto, funcionou em seus primeiros anos em prédios emprestados e precárias condições até quem em 1982 ganhou paradeiro fixo. Teve nesse período uma injeção de ânimo, devido às novas edificações, à contratação de profissionais e a implantação de novos cursos. Começou então a busca de uma identidade própria daquele Câmpus, com a abertura da II Semana Cultural no Centro Pedagógico, que tinha como tema Rondonópolis. A UFMT se expandia sem descaracterizar as peculiaridades dos locais em que se fazia presente.

Essa expansão não parou por aí. Em 1981, com a instalação do Centro Pedagógico de Barra do Garças (CPBG), a Instituição criava um importante ponto de conexão com a região do Araguaia. A localização foi estratégica e atendia tanto municípios de Mato Grosso, quanto municípios goianos. Com o funcionamento dos Cursos de Licenciatura Plena em Letras, habilitação em Língua Portuguesa, e de Licenciatura de 1° Grau em Ciências se tornou um polo de desenvolvimento.

Para atender a demanda da sociedade e da comunidade acadêmica, em 1983 é criado o Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM). A inauguração aconteceu em 1984 e garantia atendimento hospitalar – atualmente 100% Sistema Único de Saúde (SUS), assim como estágios para os estudantes dos cursos de Medicina, Enfermagem e Nutrição. A iniciativa foi e é um importante meio para atingir a função social da instituição promovida pelo papel desempenhado no campo do ensino, da pesquisa e da extensão universitária.

Durante esse período, a UFMT teve outras mudanças importantes: os processos seletivos que, eram apenas de múltipla escolha, passaram, a partir de 1983, a ser realizados em duas fases e adotar também caráter discursivo, que exigia uma qualificação mínima para a iniciação no ensino superior.

Cultura multifacetada 

O compromisso com a cultura não poderia deixar de se fazer presente. Foi na década de 80 que o Teatro Universitário foi construído e proporcionou uma exibição e apreciação da cultura aos cuiabanos, estreitando os laços entre a população e a universidade, transformando-se um espaço de difusão da cultura regional e erudita. Essa obra somou com as iniciativas criadas na década anterior, como o Museu de Artes e Cultura Popular (MACP), de 1974, que promove artistas regionais por meio do cinema, e se configura como local de promoção das produções artísticas, facilitando o intercâmbio entre Mato Grosso e as demais regiões brasileiras.

A Orquestra Sinfônica da UFMT também data desse período. Em 1979, foi criada com o objetivo de desenvolver as habilidades artísticas e servir de veículo de integração com a comunidade. A Banda Sinfônica da Universidade Federal de Mato Grosso – Banda U, como era conhecida, tinha em seus primeiros anos uma considerável preocupação em aumentar o repertório e com a qualidade do seu desempenho, tornando os integrantes aptos para as mais diversas demandas.

Outra importante iniciativa que contou com a participação da comunidade externa foi a criação, em 1980, do Coral Universitário. São consolidadas, a partir daí, iniciativas anteriores. O trabalho do Coral, até os dias de hoje, busca preparar os integrantes por meio do ensino de qualidade para a realização e participação de musicais, entre outras atividades. O grupo ainda representa a Instituição em congressos e cursos realizados por todo o país e fora dele, inclusive em parceria com a Orquestra Sinfônica da UFMT.

As manifestações culturais de Mato Grosso também têm suas marcas no cinema e um lugar especial na UFMT. Em 1977, foi criado o Cine Clube Coxiponés, com a apresentação do filme brasileiro Uirá – um índio em busca de Deus, dirigido por Gustavo Dahl. A iniciativa demarca um lugar de debate sobre as produções fílmicas nacionais e incentiva criadores regionais. As primeiras ações na área cinematográfica foram instituídas a partir de três modalidades de apresentação: o Cinema Cultural, o Cinema Arte e o Cinema Educativo. A primeira produção da casa fez parte do convênio com a Embrafilme., Com duração de 30 minutos, em cores, com equipamento de 16 mm, apresentou a relação das atividades da Instituição com questões sociais, econômicas e culturais. 

A UFMT integrou também o Projeto Pixinguinha, lançado em 1977, de âmbito nacional e inspirado na série de shows Seis e Meia, que consiste em 60 espetáculos musicais, nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. A adesão aconteceu em agosto de 1983. Na ocasião, se apresentaram no Teatro Universitário, por meio de convênio firmado com a Funarte, uma grande quantidade de artistas. 

Revendo seu papel

Novos rumos surgiram na década de 90. O processo de expansão estava a todo vapor e também o de interiorização, com a implantação de novos cursos – inclusive de mestrado, edificações e expressivo avanço tecnológico. Foi um período em que os papéis das universidades federais no país passaram por uma revisão e, em fevereiro de 1992, foi aprovada a Reforma Administrativa da UFMT. Nessa ocasião, os antigos Centros se transformaram em Institutos e Faculdades, e em março do mesmo ano os representantes, eleitos democraticamente, tomaram posse em solenidade realizada no Teatro Universitário.

O compromisso social se fez presente nesse período, assim como em todos os outros. Em 1990, teve início o Projeto Luz, com o objetivo de alfabetizar jovens e adultos excluídos do sistema regular de ensino. A iniciativa marcou a Instituição e diplomou 60 alunos das cinco turmas monitoradas durante três meses por estagiários, alunos da UFMT.

Um passo à frente

A Universidade da Selva, mais uma vez, com o olhar no futuro e na tentativa de sanar as demandas da sua terra, inaugurou, por meio do Núcleo de Educação Aberta e a Distância (NEAD), em 1994, o primeiro curso de graduação a distância do país. O objetivo era formar professores em exercício das redes estadual e municipal de ensino. Em dezembro daquele mesmo ano, 350 professores participaram da fase experimental do curso. Atendendo a sete municípios, teve seu primeiro polo na cidade de Colíder, a 750 km da capital.

De certa forma, os primeiros passos para a efetivação desse projeto já haviam sido dados. Com a reivindicação de muitos municípios, a UFMT se fez presente, antes disso, por meio de cursos de extensão e de graduação durante os períodos de férias. Intitulada de licenciatura parcelada, a iniciativa formou grande número de professores e em partes se assemelhava com a didática empregada na modalidade de ensino a distância, com a utilização de material impresso, fazendo uso do correio e do telefone como ferramentas alternativas para a comunicação e, claro, com os momentos destinados aos encontros presenciais.  

No âmbito do ensino a distância, em 2006, com a implantação do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) – ação que busca ampliar e interiorizar o ensino superior, utilizando Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) – a UFMT potencializou o atingimento de suas metas podendo alcançar ainda mais pessoas, nos mais distantes municípios de Mato Grosso. 

Um período de lutas

A década de 90 se inicia seguindo o considerável ritmo de expansão que vinha, até o momento, apresentando novas edificações, implantação de novos cursos, inclusive de pós-graduação stricto sensu – mestrados e doutorados – e com o projeto de interiorização indo “de vento em popa”.

Em 1992, líderes indígenas de Mato Grosso, que buscavam apoio da Instituição para a luta nas áreas da educação, saúde e demarcação das reservas auxiliaram a retomada da concepção de Universidade da Selva. Apesar de não conseguir resolver todos os problemas, a UFMT  detém poder suficiente para ajudar a resolver muito deles.

Houve outras importantes ações durante o período como a inauguração do Centro Cultural, em maio de 1999, que concentrou a sede da Coordenação de Cultura, o Museu de Arte e Cultura Popular, o Cine Clube Coxiponés, Salas de Vídeo, Salas de ensaio e de aula, assim como um auditório com 250 lugares. Novamente, a cultura ocupa lugar de extrema importância , ampliando sua atuação e estreitando, cada vez mais, os laços com a comunidade.

A saúde também teve destaque, com a inauguração do Hospital Veterinário em 10 de setembro de 1999. Sua estrutura conta com recepção e atendimento; centro cirúrgico; setores de internação, de sustentação, de apoio e diagnóstico. Assim como o HUJM, atende a população, e também se configura como um importante espaço de ensino, pesquisa e extensão para a comunidade acadêmica.

De portas abertas e com condições para entrar 

Durante os 50 anos de funcionamento, a UFMT jamais abandonou os compromissos firmados com a sociedade mato-grossense. Um deles é a consolidação da educação como fortalecimento do Estado, rompendo qualquer barreira antes imposta pela ausência de uma Instituição de ensino superior no estado. Esse feito está alicerçado nas bases de uma filosofia de fixação do homem à terra, por meio da interiorização da Universidade. Não basta a UFMT chegar ao maior número de lugares, é preciso que o maior número de pessoas representadas pelas diferentes etnias presente nas regiões também tenham acesso a esses espaços.

Na tentativa de proporcionar uma equidade ao acesso, fez-se necessária a elaboração de ações afirmativas que garantam a universidade como um ambiente plural. Ao longo dos anos surgiram iniciativas em diversos âmbitos, mas dois programas tiveram e têm bastante relevância nesse segmento, o Programa de Inclusão Indígena (PROIND) e o Programa de Inclusão Quilombola (PROINQ).

O primeiro surgiu ainda em 2007. O  PROIND, intitulado “Guerreiros da Caneta”,  se comprometeu com a formação em cursos de graduação indicados pelas próprias comunidades indígenas de origem dos estudantes. Até o ano de 2018 foram 54 estudantes distribuídos em 16 cursos de graduação nos Câmpus de Cuiabá, Araguaia, Sinop e Rondonópolis – atualmente Universidade Federal de Rondonópolis.

Já o PROINQ teve seu início em 2017 e é fruto de um processo de luta e diálogo entre a comunidade acadêmica e a quilombola. Com o primeiro edital publicado em agosto daquele ano, a intenção era o preenchimento de 100 vagas anuais para esse grupo, por um período de dez anos.

Esses tipos de iniciativas garantem o acesso e se configuram como uma forma de reparação histórica das desigualdades educacionais vividas por essas comunidades. A política de inclusão possibilitou a diversidade étnica pioneira no Brasil, incluindo estudantes pobres, negros e índios. Ampliando em pelo menos 30% as vagas, a UFMT inclui sem excluir e ainda proporciona enriquecimento de seu maior bem : as pessoas

Novo século, novos passos

Durante os anos 2000, a Instituição adotou diversas medidas para potencializar as ações empregadas ao longo de sua história. Um exemplo é adoção de um novo modelo de vestibular que passou a vigorar a partir de 2004 como processo seletivo – anteriormente, ele era realizado em duas fases de dois dias consecutivos..

Esse modelo se assemelhava aos aplicados hoje em dia a partir da adesão, em 2009, ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), com a criação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A decisão se deu em debate aberto com a comunidade e em audiência pública sobre a qualidade do ensino médio. Havia duas razões para a adoção do modelo, uma política e outra pedagógica. A política se relacionava com um dos  princípios da Instituição, a democratização do acesso e de oportunidades, o que seria facilitado pelo exame. Já no quesito pedagógico, a razão foi o impacto que causaria um exame nacional que exigisse das escolas o cumprimento de suas funções.  

Houve também, na primeira década do século, um expressivo número de obras que representou o crescimento de mais de 100%, a partir de 2006, graças ao plano de expansão elaborado pela Pró-reitoria de Planejamento. Um dos Câmpus beneficiados foi o de Rondonópolis, que passou a ser Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), a partir de 2018.

Já o Instituto Universitário do Araguaia (Iuniaraguaia) inaugurou, em outubro de 2008, a primeira etapa do Câmpus II, em Barra do Garças. Houve nesse período um crescimento significativo no número de cursos e de vagas. Para atender essa demanda, foram contratados professores e construídas novas salas de aulas e  laboratórios no Câmpus I, em Pontal do Araguaia.

O Instituto Universitário do Norte Mato-grossense (Iunmat), instalado em 1992 para atender as necessidades da região foi inicialmente voltado para a realização de cursos de aperfeiçoamento para professores da rede pública. Em 2002, a transferência do prédio foi formalizada para a UFMT  e em novembro de 2007 foi inaugurada a primeira etapa das obras do Câmpus de Sinop.

O Câmpus de Cuiabá também foi beneficiado durante essa década com uma significativa melhora em sua infraestrutura. Prédios como o Casarão, laboratórios e Unidades Acadêmicas foram reformados. Além disso, obras já existentes foram revitalizadas. Outras ações de melhorias englobaram a iluminação e sinalização com placas informativas nos blocos e unidades acadêmicas, facilitando o acesso dentro do Câmpus. Esse crescimento se entendeu para a segunda década, na qual se iniciou, em 2014, a obra do Câmpus de Várzea Grande que atualmente está 90% concluída.

Ainda nos anos 2000, os técnicos administrativos obtiveram a oportunidade de se qualificar a partir do Programa de Qualificação Stricto Sensu (PQSTAE). O objetivo é promover condições para o desenvolvimento desses servidores por meio do ingresso em cursos de mestrado e doutorado, visando a qualificação para o exercício da atividade profissional, que vigora até os dias de hoje. 

Desafios nunca antes imaginados 

Chegado 2020, 50 anos de Universidade Federal de Mato Grosso, data recheada de significados, tanto para a comunidade acadêmica, quanto para a população em geral.  Data marcada pelo enfrentamento à pandemia da Covid-19,  que até dezembro , ceifou mais de 170 mil vidas no Brasil.

Diante desse cenário, assim como o mundo, a UFMT precisou se adaptar. Na tentativa de frear o avanço da doença, o distanciamento social, associado a álcool em gel 70% e máscara, eram e são as medidas mais apropriadas para a proteção pessoal e coletiva. A pandemia impactou os sistemas de saúde, a economia e principalmente a vida em sociedade.

A Instituição não seguiu com as atividades programadas da forma habitual. Todos os processos precisaram ser repensados e discutidos, pois a UFMT tem compromissos invioláveis com seus públicos, mas para cumpri-los precisava se adequar ao novo desafio. O mais seguro foi a retomada das atividades flexibilizadas. Entretanto, antes dessa adoção, foram desenvolvidas ações afirmativas para garantir o acesso, por meio de editais, primeiro com a conexão e logo com os equipamentos.

Enquanto isso, outros segmentos continuavam a todo vapor. A exemplo das iniciativas do Campus de Sinop, que durante a pandemia desenvolveu um livro infantil, intitulado Coronavírus: mundo invisível. A obra leva de forma lúdica conceitos da microbiologia para as crianças, abordando a origem do vírus, as formas de contágio, iniciativas para a prevenção e os sintomas da doença. Como é indicado para os primeiros anos da alfabetização, com a supervisão dos pais, o livro informa toda a família sobre o tema, configurando-se como uma importante ferramenta no combate à pandemia. A produção ganhou versão em inglês, espanhol, libras e em idioma indígena Macuxi, maior etnia de Roraima, e o grupo ainda trabalha na tradução de outros idiomas indígenas de diferentes etnias, para ampliar ainda mais o acesso a essas informações. As Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) também foram contempladas com cerca de 200 cópias.

Outra iniciativa importante foi a do Câmpus de Cuiabá, que produziu solução sanitizante à base de álcool, utilizada no combate ao coronavírus, atendendo às indicações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com a produção de quatro mil litros e uma distribuição inicial de 300 litros, o grupo trabalha como sistema de retorno das embalagens. Houve muitas outras iniciativas no período, voltadas para o bem-estar e saúde mental, nutrição, uso racional de medicamentos entre tantos outros. Além disso, o Centro Olímpico de Treinamento (COT) abrigou o projeto de extensão para a produção de álcool gel, resultando em mais de 80 mil litros, distribuídos gratuitamente para os órgãos públicos.

Daqui a 50 anos…

Dentre as ações que apontam o destino da UFMT, está a retomada da obra do novo prédio do Hospital Universitário, que teve início em 2012. A iniciativa detém o conceito de hospital-escola, considerada uma das principais ações do governo no âmbito da saúde. A obra reforçará a rede já existente no estado e ainda qualificará os estudantes de graduação das diferentes áreas da saúde. Com mais de 58 mil metros quadrados de área construída, se configurará como um dos maiores hospitais universitários do país. As obras estão localizadas no km 16 da rodovia Palmiro Paes de Barros, que liga a Capital a Santo Antônio de Leverger, a 32 km de Cuiabá.

Podemos dizer que a UFMT é um organismo – mutável, pulsante e em constante expansão. Aos 50 anos, não se perdeu pelo caminho ou ficou no passado: segue firme com a missão de formar profissionais competentes para o mercado e cidadãos críticos e conscientes aptos para a vida em sociedade. Assim como as lutas que marcaram o início da trajetória, o futuro reserva muitas (novas) batalhas, que, juntos, lutaremos. Lançar um olhar para esse passado permite vislumbrar as possibilidades do futuro, sem perder de vista que a UFMT foi um sonho do povo desta terra, que hoje pode ser vivido – e poderá por todas as gerações futuras.  

Bibliografia básica

LIMA, Maria Santíssima de. et al. Manual de identidade visual. Cuiabá, 2014.

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira; DOURADO, Nileide Souza; RIBEIRO, Roberto Silva (Orgs). Universidade Federal de Mato Grosso 40 anos de História. Cuiabá: EdUFMT, 2011.

UFMT. O olhar cria esquinas para o azul. Cuiabá, 2018.

UFMT. Universidade Federal de Mato Grosso – Relatório de Gestão 2008 – 2016. Cuiabá. 

UFMT. Indicadores das Universidades Federais Brasileiras: A UFMT No Cenário Regional e Nacional. 1ª edição. Cuiabá, 2018.

UFMT. Anuário Estatístico 2020 – Ano base 2019. Cuiabá, 2019.

UFMT. Plano de Desenvolvimento Institucional 2019-2023. Cuiabá, 2019. 

UFMT. Relatório de Gestão 2016 – 2018: Governança, Qualidade Acadêmica e Pluralidade. Cuiabá: EdUFMT, 2019.

UFMT. Relatório de Gestão e Prestação de Contas da Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, 2018.

Texto: Liz Paola Brunetto – Edição: Michel Lacombe

* Como o próprio título diz, essa é apenas uma história da UFMT, baseada na bibliografia consultada. Há muitas outras… Quer contar a sua? Acesse o menu “Conte sua história” e envie-a.